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A revolução dos leitores digitais Por Lilia Diniz, em 21/10/2009 Os leitores digitais prometem revolucionar os hábitos de leitura e o mercado editorial em todo o mundo. Lançados em 2007, nos Estados Unidos, agora chegam ao Brasil e a mais cem países por meio da versão internacional do Kindle, vendido pela Amazon. O conteúdo poderá ser baixado por uma rede sem fio, mas em algumas localidades do Brasil será necessário contectar o aparelho a um computador. Mais de 350 mil livros estão disponíveis em inglês no novo suporte, e outros 200 mil em outras línguas. Também é possível ler jornais, revistas e blogs. O preço final no Kindle internacional no Brasil ainda é alto, cerca de mil reais. O Observatório da Imprensa exibido na terça-feira (20/10) pela TV Brasil discutiu as vantagens e desvantagens do equipamento. Para debater este tema no estúdio, o jornalista Alberto Dines recebeu quatro convidados. No Rio de Janeiro, participaram Muniz Sodré e Fernanda Pellegrini. Sodré é professor de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), presidente da Fundação Biblioteca Nacional e colunista deste Observatório. A jornalista Fernanda Pellegrini, gerente de Inovação do Infoglobo, participa do desenvolvimento da internet comercial no Brasil desde 1994. O Globo foi o primeiro no Brasil a disponibilizar o seu conteúdo no Kindle. O jornalista e escritor Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, participou no estúdio de Brasília. Em São Paulo, o convidado foi Felipe Serrano, repórter do caderno "Link", de O Estado de S.Paulo. A mídia na semana Antes do debate ao vivo, na coluna "A mídia na semana", Dines comentou a cobertura da imprensa sobre a escalada da violência no Rio de Janeiro, onde um helicóptero foi derrubado por traficantes no sábado (7/10). Em seguida, informou que o Observatório foi escolhido como um dos cinco melhores programas brasileiros pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados por meio da campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania". No editorial do programa, referindo-se ao Kindle, Dines destacou que os veículos de imprensa não chamaram a atenção para as deficiências do novo "brinquedinho eletrônico". Para o jornalista, a mídia "pintou a trapizonga – como a chamou João Ubaldo Ribeiro – como se fosse definitiva" Um caminho longo e sem volta Primeiro segmento do mercado editorial a sentir as conseqüências do impacto dos leitores digitais, o ramo de livrarias terá que rever suas estratégias. O Observatório exibiu uma entrevista gravada com a livreira Elisa Ventura. "O livro impresso, assim como o jornal, terá uma vida longa", avaliou. Em sua opinião, o livro digital é apenas um suporte diferente para um mesmo conteúdo, mas acarretará uma grande mudança no mercado de livros no Brasil. As livrarias terão que se reinventar, não podem contar que sobreviverão apenas com a venda de livros. Apesar do "fetiche" que envolve a venda em lojas, com o "insubstituível" contato direto do cliente com o vendedor, os proprietários de livrarias precisarão se adaptar ao novo cenário. Na bancada do estúdio do Rio, três objetos tiveram destaque: um livro convencional e dois leitores digitais. Os equipamentos eletrônicos foram levados por Fernanda Pellegrini, a pedido da produção do programa. Ao logo do debate, foram mostradas para os telespectadores as diferenças entre os três produtos. No início da discussão ao vivo, Dines pediu para Pellegrini explicar como funcionam o Kindle e o DX. A jornalista comentou que o primeiro é mais leve, compacto, é dotado de uma tela menor e tem capacidade para armazenar 1.500 títulos. Já o segundo é mais robusto, a tela tem o dobro de tamanho e pode guardar cerca de 3.500 obras. O Kindle internacional que chegará ao consumidor brasileiro terá um chip que permitirá ao leitor se conectar à rede 3G e baixar o conteúdo em tempo real. Pellegrini citou como exemplo um consumidor que está em um clube e lê em um jornal, pelo Kindle, a notícia do lançamento de um livro que o agrada. Em pouco tempo o leitor pode comprar o livro, baixar, e começar a ler a obra. Em uma viagem, por exemplo, é possível "carregar" toda a biblioteca de alguém em um equipamento que pesa cerca de 280 gramas. O primeiro a largar na corrida tecnológica Fernanda Pellegrini explicou que O Globo acredita que onde há um cliente é preciso levar conteúdo; por isso, foi o primeiro jornal no Brasil a publicar no Kindle. Com os leitores digitais, é possível atender a um maior número de clientes, como brasileiros que moram no exterior. Na visão do jornal, a partir do momento em que o novo suporte passou a ser uma tendência, é preciso experimentar – mesmo tendo a consciência de que esta geração de produtos "não vai mudar muita coisa" no mercado de jornais e nos hábitos de leitura. Outra percepção do jornal é a de que o mundo está se transformando e os constantes avanços tecnológicos exigem que as empresas mudem suas estratégias. Dines comentou que recentemente O Estado de S.Paulo noticiou com destaque a previsão lançada na Feira do Livro de Frankfurt, realizada na Alemanha, de que o livro em papel acabaria em 2018. O jornalista questionou se não haveria aí um "oba-oba fúnebre". Para Felipe Serrano, houve exagero na avaliação, mas as vantagens das novas tecnologias devem ser aproveitadas. "O mundo digital está se abrindo para novas oportunidades e todo o mundo tem que estar dentro", disse. Serrano destacou que o livro em papel tem muitas qualidades que ainda não conseguiram ser suplantadas pelos modelos eletrônicos. Luiz Fernando Emediato foi categórico. "O livro em papel vai acabar, sim", afirmou. Assim como deixaram de circular os LPs e fitas VHS, os livros impressos serão extintos. O prazo em que ocorrerá não é relevante. "A palavra escrita não acaba", avaliou. O editor destacou que as deficiências dos equipamentos apontadas por especialistas em relação ao conforto e à legibilidade são semelhantes às dos livros e jornais em papel. Quem reclama de ler o Kindle ao sol, por exemplo, não conseguiria ler o impresso nas mesmas condições. Emediato acredita que em breve será lançado um leitor digital com características semelhantes às do livro tradicional, mais agradável de ser manuseado, com mesmo cheiro e textura. "O que importa é o conteúdo, aquilo que nos faz sonhar, ficar comovidos e refletir", disse. Forma e conteúdo Com um livro convencional nas mãos, Dines apontou as qualidades do produto. E destacou que há por trás dele um processo multissecular que vem desde as xilogravuras empregadas pelos chineses. Muniz Sodré comentou que o francês Michel Melot, renomado especialista em bibliotecas, tem uma bela definição de livro: "Livro é aquilo que mora entre duas capas". Portanto, em princípio, o conteúdo livro pode migrar para qualquer suporte. A atual forma, o códice, demorou cerca de quatro séculos para se impor: páginas frontais, imbricadas em cadernos, costuradas, lidas em uma determinada ordem. Com os leitores digitais, a forma de leitura volta a se assemelhar aos antigos rolos usados na Antiguidade. "As formas mudam e as vantagens do papel permanecem por muito tempo", disse Muniz. Como presidente da Biblioteca Nacional, afirmou que o papel é mais confiável para a preservação de conteúdos. "Um microfilme pode durar 500 anos. Um material digital não tem a menor garantia da durabilidade. Podem ser séculos ou dois anos, nós não sabemos. Eu não confiaria o conteúdo da Biblioteca Nacional a nenhum material digital. O velho papel ainda é a maior garantia de sobrevida da memória nacional que nós temos", disse. Mas, na opinião de Muniz Sodré, a forma tende a mudar. O livro "permanece mesmo fora do papel" e é preciso pensar na preservação da natureza. "Cada livro, cada jornal, é uma floresta que acaba", disse.
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